Efeito Orloff” versão europeia
Postado em 6 de maio de 2010 por osvaldobertolino
Por José Paulo Kupfer, no jornal O Estado de S. Paulo
A crise grega, que não é da Grécia, mas da Europa, e que também pode vir a ser do resto do mundo, é uma crise fiscal que corre o risco de se transformar numa nova crise bancária. Esse é o perigo que, no curto prazo, tenta-se evitar, com a montanha de dinheiro amealhada pela União Européia e o FMI para despejar na Grécia.
Economia minúscula, nem um terço da brasileira, a da Grécia, mesmo com seus escalafobéticos déficits e dívidas públicos, não teria o poder de contaminar o resto do mundo, não fosse a interligação global do sistema financeiro – e a sua desajuizada alavancagem. Mas, como os bancos gregos devem para os bancos portugueses, estes para os espanhóis e os espanhóis para instituições francesas e alemãs e daí para holandesas, japonesas, britânicas, americanas – numa espiral de dívidas que chega perto de US$ 1,5 trilhão –, os riscos de uma nova reação em cadeia são consideráveis.
É justamente essa percepção que tem se alastrado, provocando movimentos de pânico nos mercados – na Europa, nos Estados Unidos e, também, no Brasil. No momento em que escrevo, o índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, caiu mais de 3%, depois de ter mergulhado a espantosos menos 8%. No Brasil, a Bolsa opera em queda de 2,5%, mas já andou abaixo de 6%. E o dólar, no mercado cambial brasileiro, chegou a R$ 1,90, com alta de mais de 5%.
O medo é o de que ocorra uma versão européia do “efeito orloff” latino-americano. Como o Brasil depois da Argentina, nas crises dos anos 80 e 90, a Grécia pode ser hoje o que seriam Portugal e Espanha amanhã. E daí para frente, quem pode prever o que aconteceria?
A situação grega, numa palavra sincera, é insustentável. Nem se fosse o caso de dar um calote do total de sua dívida, os problemas gregos estariam mais perto de uma solução. O déficit público primário grego passa de 5% do PIB e, portanto, mesmo sem considerar os juros da dívida pública, já seria um buraco complicado de tapar, que dizer no âmbito de um regime de câmbio fixo, como o do euro. A deflação necessária para ajustar as coisas é impensável, como já demonstraram as violentas manifestações populares dos últimos dias em Atenas. Só com uma moeda desvalorizada a equação do ajuste poderia fechar.
Com o agravamento da crise, a hipótese inconcebível do abandono do euro pela Grécia vai, aos poucos, se tornando mais plausível. Começam a aparecer sugestões para que a Grécia siga o exemplo da Argentina, na saída da lei de conversibilidade, em 2001. Naquela ocasião, os hermanos impuseram, previamente, uma série de regras para a retirada dos depósitos nos bancos – o que ficou conhecido como “corralito” –, evitando uma corrida sangrenta contra os bancos locais.
A Grécia, como disse Nouriel Roubini, numa quase tautologia, é a ponta de um iceberg. As incertezas em relação aos demais países endividados da Europa, ao futuro do euro e a reação do sistema financeiro internacional, só tendem a aumentar. Assim como os temores de um novo colapso global.
FONTE:PORTAL VERMELHO
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